Prejuízos à saúde, meio-ambiente e economia - o transporte como problema

Texto por Rejane Fernandes
Transporte disputa com a indústria a triste liderança no ranking dos setores que mais emitem gases de efeito estufa. Entre os causadores da poluição atmosférica urbana, porém, já não tem rivais. Responde por 23% das emissões globais de gases de efeito estufa relacionadas com energia e por 70% da poluição do ar nas grandes cidades. O ciclone Katrina, que arrasou New Orleans (EUA), o furacão Catarina, que inaugurou a ocorrência desses fenômenos climáticos no Brasil e no Hemisfério Sul, e tantos outros desastres de história recente, em que milhares de pessoas perderam a vida e centenas de milhões de dólares se somaram em prejuízos, já são resultados das mudanças climáticas geradas pelo efeito estufa. Diversos estudos da USP e da Organização Mundial da Saúde têm apresentado as conseqüências da poluição do ar, tais como a redução no nascimento de crianças do sexo masculino, o aumento na ocorrência de abortos, a perda crescente do olfato dos habitantes das cidades e mais de dois milhões de mortes prematuras a cada ano.

Minha secretária, dona Ana, acorda às 4h30min para pegar o ônibus das 6h e chegar ao consultório às 9h”, testemunhou o psiquiatra e especialista de trânsito José T. Thomé, à Gazeta Mercantil (24.03.2008). Thomé libera a funcionária às 17h30min para que ela possa chegar em casa às 21h – são cinco horas e meia por dia despendidas no trânsito, a respirar poluição e a diminuir expectativa de vida.

“O caos no trânsito é fruto da combinação de políticas de uso do solo, circulação e transporte”, resume para o jornal Valor (25.04.2008) Raquel Rolnik, professora da PUC-Campinas e relatora da ONU para o Direito à Moradia Adequada.

Custos

Setor com maior índice de crescimento das emissões entre todos os monitorados pelo IPCC, o transporte também vem somando prejuízos econômicos às grandes cidades. Para citar apenas o exemplo brasileiro:
a cidade de São Paulo terá este ano um custo de R$33,5 bilhões como resultado das emissões e do excesso de veículos no trânsito. O cálculo feito pelo economista e professor Marcos Cintra, da Fundação Getúlio Vargas, envolve o custo de oportunidade da mão-de-obra somado ao custo pecuniário em 2008. O custo de oportunidade (R$27 bilhões) refere-se ao que se deixa de fazer por estar parado no trânsito, seja relativo ao trabalho ou ao lazer. O custo pecuniário (R$6,5 bilhões) é o que o cidadão e a sociedade pagam diretamente pelos congestionamentos e assim se divide: o adicional de combustível (R$4,154 bilhões), custo da saúde pública (R$406 mihões) e custo adicional do transporte de carga (R$1,955 bilhão).

Mortes

“Os acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre os jovens de 15 a 19 anos, a segunda nos segmentos de 10-14 e de 20-24 e estão entre as dez primeiras causas entre os menores de 25, na frente de afogamentos e tuberculose”.
Relatório da Organização Mundial da Saúde, 2007

Tempo Perdido

Um conjunto de pesquisas feitas no Rio de Janeiro desde 2004 pelo professor de engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, Ronaldo Balassiano, mostra que o tempo perdido no trânsito, seja no automóvel ou no ônibus, gera um prejuízo de até R$12 bilhões ao ano para a cidade do Rio. É um cálculo conservador, alerta o próprio Balassiano. Seu colega, o engenheiro e professor Fernando MacDowell, informa a queda de 70% na velocidade média nas principais vias do Rio na última década. No Túnel Zuzu Angel a média baixou de 89 km/h entre 7h e 8h, em 1997, para 20km/h hoje .

Excesso de Veículos

O caos no transporte urbano tem relação direta com a quantidade cada vez maior de automóveis em circulação. O crescimento econômico, o maior poder aquisitivo e o crédito farto são o cenário perfeito para a indústria automobilística bater recordes de produção e vendas. Apenas no primeiro trimestre de 2008 as vendas sofreram um inédito aumento de 31,4%, comparadas a períodos semelhantes, de acordo com dados da Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea). Foram vendidas 648 mil unidades da produção trimestral de 783 mil veículos.

Todos os dias, em São Paulo, são registrados
- 500 nascimentos
- 800 licenciamentos de veículos.

A Organização Internacional da Indústria Automobilística, conhecida pela sigla OICA, vaticina aos países chamados BRIC (Brasil, Russia, India e China) a conquista da pole position na venda de carros, em um período máximo de seis anos, a contar de 2008, deixando na poeira americanos e europeus. A frota mundial de veículos já ultrapassou um bilhão de unidades, em 2007, e calcula-se a existência de um carro para cada grupo de seis pessoas, em escala mundial. Em São Paulo há um automóvel para pouco mais de duas pessoas e o índice de congestionamento tem batido sucessivos recordes, depois de atingir supreendentes 229 km, em três de abril de 2008.

Traffic Chaos in India

Quanto mais congestionamentos, mais emissão de gases de efeito estufa, mais poluição e mais sérias as conseqüências para o planeta, para o desenvolvimento das cidades e para a vida dos cidadãos. O caminho para vencer o caos tem variadas e divergentes alternativas, mas há três pontos em que os especialistas são unânimes: é preciso:

Limitar a circulação de veículos privados

Fazer valer uma regulação urbanística de zoneamento e ocupação do solo em sintonia com a circulação das pessoas

Incentivar o transporte coletivo eficiente

Foto: Rede EMBARQ